Beijo gay, Brigitte Macron e a violência contra a mulher no Brasil

A cada quatro minutos uma mulher é agredida no Brasil por ao menos um homem e sobrevive, conforme dados do Ministério da Saúde publicados pelo jornal Folha de São Paulo nesta segunda-feira (8.9). Em 2018, foram registrados mais de 145 mil casos de violência (física, sexual, psicológica e de outros tipos) em que as vítimas sobreviveram. Os dados do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), que não incluem o número de mulheres assassinadas, foram obtidos pelo jornal por meio da Lei de Acesso à informação.

Em 4 de setembro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou durante evento público que a primeira-dama da França, Brigitte Macron, “é feia mesmo”, dias depois de o presidente Jair Bolsonaro publicar comentário numa postagem ofensiva nas redes sociais sobre a mulher do presidente da França, Emmanuel Macron. Depois Bolsonaro retirou o comentário e Guedes, que também afirmou não existir mulher feia _“o que existe é mulher observada pelo ângulo errado”_ soltou nota pedindo desculpas.

No Rio de Janeiro, durante a Bienal do Livro, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, tentou censurar e “recolher”, inclusive com a obtenção de uma liminar, o HQ Vingadores, a Cruzada das Crianças porque ficou contrariado pelo fato de a revista em quadrinhos ter o desenho de um beijo gay. Pastor licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Crivella tentou impor ao demais moradores da cidade e do Brasil sua vontade, passando inclusive por cima da Constituição e das leis em vigor.

Aparentemente sem ligação direta, os três fatos citados antes são um sinal de alerta de que os valores democráticos devem ser reafirmados e defendidos a cada momento, a cada dia e a cada minuto. A fala de Guedes, mestre e doutor em economia pela Universidade de Chicago (EUA) e ex-professor universitário, comprova que a violência contra a mulher ocorre nos mais diferentes ambientes, seja um auditório lotado de empresários, que riram do comentário do ministro, ou nas residências das vítimas.

Um comportamento apoiado publicamente pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, que recentemente também criticou a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, duas vezes ex-presidente do Chile. E ao ofender Bachelet,  cujo pai foi torturado e assassinado aos 51 anos pela ditadura militar que se instalou no Chile após o golpe liderado pelo general Augusto Pinochet, Bolsonaro fez apologia da tortura, o que pode ser considerado também uma tentativa de agressão psicológica.

Em relação aos dados levantados pela Folha de São Paulo vale lembrar que não contabilizam o número de mulheres assassinadas no Brasil, cujas informações não são objetos do mesmo tipo de notificação de violência.  Em 2017, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),  houve 4.396 assassinatos de mulheres no país. O último Atlas da Violência, do Ipea, com dados de 2017, mostra que a taxa de mortes de mulheres bateu recorde, chegando a 4,7 assassinatos a cada 100 mil habitantes.

Trabalhar para mudar esse tipo de comportamento e de cenário é uma obrigação para todos aqueles que defendem valores democráticos. E a reação de parte da sociedade, tanto em relação ao caso da tentativa de censura na cidade do Rio de Janeiro quanto em relação às críticas feitas ou endossadas por “autoridades” brasileiras à Brigite Macron, mostram que é preciso agir para impedir que situações como essa se repitam. Há muito trabalho a ser feito, principalmente por parte da sociedade.


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