Empregos de melhor qualidade, desafio para hoje e os próximos anos

Por Vivaldo de Sousa |


Dois indicadores sobre o mercado de trabalho, divulgados em janeiro, indicam uma melhora na recuperação da atividade econômica em 2019. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou um saldo positivo de 644 mil novos postos de trabalho no mercado formal (com registro em carteira) no ano passado. No último trimestre, o desemprego ficou em 11%, conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Embora positivos, os resultado desses indicadores devem ser olhados com cuidado. Três dados chamam a atenção no desempenho do emprego formal em 2019: 1) 16,5% das vagas criadas foram intermitente, em que o trabalho ocorre esporadicamente em dias alternados ou por algumas horas, ou nas modalidades por tempo parcial, com jornadas semanais de 26 ou 30 horas semanais; 2) salários menores do que aqueles que eram pagos nos últimos anos pelas empresas; 3) crescimento da informalidade.

Os dados divulgados pelo governo mostram que o salário médio de admissão em dezembro do ano passado foi de R$ 1.595,53. Em termos reais, esse valor representou uma queda em relação ao mesmo período de 2018, quando ficou em R$ 1.597,94, corrigidos pelo INPC. Também houve uma queda na comparação com o mês anterior: em novembro de 2019, o salário médio de contratação ficou em R$ 1.611,14. Menos renda se reflete em menos consumo.

Informação divulgada pelo jornal O Globo, com base em microdados dos Caged, mostrou que o Brasil não cria vagas com rendimento acima de dois salários mínimos há 14 anos. O levantamento mostra que a partir de 2006 não houve saldo positivo nas contratações para qualquer faixa de renda com remuneração superior a duas vezes o piso nacional. Somando os dados de 2019, o país extinguiu 6,7 milhões de empregos com renda mais alta desde 2006.

Ao longo do tempo, segundo a reportagem, o mercado de trabalho passou a trocar vagas de maior qualidade por postos de menor rendimento. Foram criados 19,2 milhões de postos de trabalho desde 2006, porém, todos com renda de até dois salários mínimos. Tudo isso num momento em que a proporção de profissionais com ensino superior aumentou, passando de 14% par 19% da força total de trabalhadores, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE.

A alta da informalidade merece atenção. Os dados do IBGE mostram que a taxa de informalidade atingiu 41% no quarto trimestre. Em número, isso representa 38,4 milhões de pessoas. A categoria por conta própria, com 24,6 milhões de pessoas, ficou estável no último trimestre. Em relação ao último trimestre de 2018, houve elevação de 3,3%. Entram na conta a soma dos trabalhadores sem carteira, trabalhadores domésticos sem carteira, empregador sem CNPJ, conta própria sem CNPJ e trabalhador familiar auxiliar.

Entre 2018 e 2019 houve uma alta de 4% no número de trabalhadores sem carteira assinada no setor privado (exceto domésticos), para 11,6 milhões de pessoas – o maior patamar da série histórica iniciada em 2012. Atento aos números, o economista José Roberto Afonso viu que em dezembro do ano passado, do total de trabalhadores ocupados, 37,5% eram com carteira, ante 30,5% de informais. Há sete anos, essas proporções eram de 40,8% e 26,9%.

Se a atual tendência e ritmo se mantiver nos próximos anos, nos próximos dez anos o total de trabalhadores informais vão superar aqueles com carteira assinada. A mudança no mercado de trabalho vem ocorrendo no mundo todo nos últimos anos, afetando de diferentes maneiras cada país e região. Especialistas avaliam que a melhora do mercado brasileiro só acontecerá com maior crescimento do setor industrial, responsável por empregar profissionais mais qualificados e com melhores salários. Esse é mais desafio a ser enfrentado.


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